Críticas e Ensaios

Nélida Piñon

Desde meu primeiro encontro com a paisagem pictórica de Dolino, comoveram-me as pulsações tensas, contidas, sedutoramente serenas, que emanavam de sua obra. Uma matéria que, ao mesmo tempo, anunciava sua substância secreta e irradiava ao redor os efeitos multiplicadores de sua linguagem. O límpido cromatismo de um universo, cuja gramática futura se ajustava aos novos conceitos, construía e desfazia ícones e mitos, sob o controle de uma fidelidade irrestrita a uma sintaxe geométrica, por trás da qual se ocultavam labirintos lógicos, previstos pelo artista. Sempre mestre de seu ofício, na obra de Dolino não se encontram vestígios de submissão a aventuras inconsequentes. E, com presença de crescente destaque no cenário brasileiro, seu trabalho, nascido de profunda reflexão, fertiliza-se pela força de um cotidiano artístico rigoroso e impecável, imprimindo em sua criação aquela dimensão lírica e melancólica que somente um artista sutil e refinado como Dolino tem a graça e o poder de ostentar.

Nélida Piñon
Catálogo da exposição Luminoso Paisaje
Museo de la Revolución | Havana | Cuba | 2000

Dolino e Nélida Piñon | Rio de Janeiro | 2017

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Ronaldo Miranda

"Acompanhar a trajetória visual de Luiz Dolino é, para mim, o exercício de ver a própria poesia ganhar corpo e estrutura no espaço do tecido. Desde os nossos primeiros encontros em Niterói, quando a juventude nos desafiava a traduzir o mundo, percebi que o seu traço carregava uma inquietação que nenhuma pintura tradicional de paisagens conseguiria conter por muito tempo.Quando unimos o meu verso ao seu desenho nas páginas de 1968, o que se operou ali foi um pacto indissolúvel entre a literatura e as artes plásticas. Dolino possui a rara capacidade de poetizar através do rigor. As suas retas, que cortam a tela com a precisão de um cirurgião, são em verdade versos gráficos. Elas trazem uma métrica, um ritmo e uma harmonia que pacificam os olhos e elevam o espírito. A sua geometria jamais foi um exercício de frieza; é a busca incessante por uma ordem lírica superior, onde cada plano de cor pura funciona como uma palavra perfeitamente escolhida para compor um poema visual eterno."

Padrinho cultural de Luiz Dolino e sua primeira grande interlocução literária na juventude em Niterói, o poeta Ronaldo Miranda foi o responsável pelo marco zero da trajetória editorial do artista. Em 1968, Miranda confiou ao jovem pintor as ilustrações de seu livro Poemas, inaugurando uma simbiose permanente entre a palavra escrita e o rigor plástico nas décadas seguintes. O olhar de Ronaldo Miranda sobre Dolino carrega a intimidade e a ternura de quem testemunhou a exata transição de um jovem desenhista fluminense para um mestre convicto da abstração geométrica.

Bridal 3 | 1998 | 14 x 28cm | Gravura

Leonel Kaz

"Aproximar-se do universo de Luiz Dolino exige compreender que, para ele, a tela e a página em branco pertencem à mesma linhagem de rigor e dignidade. Não há separação entre o Dolino que calcula milimetricamente a tensão de uma diagonal sobre o tecido e o Dolino que planeja a arquitetura de um livro de arte. Ambos os gestos nascem de uma mesma engenharia do pensamento.A geometria que Dolino nos apresenta opera no limiar entre o design moderno e a poesia concreta. Suas estruturas pictóricas não se limitam a ocupar o espaço; elas o fundam, impondo uma ordem soberana onde cada ângulo, cada plano modular e cada intersecção cromática cumprem uma função exata. É o triunfo de uma racionalidade que, longe de ser estéril, transborda em ritmo e pulsação. Sob o olhar de Dolino, o construtivismo brasileiro ganha uma sofisticada clareza gráfica, provando que a precisão das formas é o veículo definitivo para abrigar a memória e desafiar a desordem do tempo."

O jornalista, editor e curador Leonel Kaz compartilha com Luiz Dolino uma obsessão mútua: o respeito absoluto pelo papel, pelo design e pela precisão gráfica. Tendo acompanhado de perto a gestação de grandes projetos editoriais e mostras do pintor, Kaz debruça-se sobre a obra de Dolino não apenas como um observador de telas, mas como um decifrador de estruturas. Em seus ensaios, ele revela que a geometria do artista é, em última análise, uma sofisticada arquitetura do pensamento, onde o rigor da forma e o calor da cor constroem uma morada perene para a inteligência visual brasileir

"A geometria de Luiz Dolino opera no limiar entre o design e a poesia: suas formas não apenas ocupam o espaço, elas o fundam através de uma rigorosa arquitetura do pensamento.”

Redundante (estudo) | 2012 | 70 x 90 cm | Coleçao Leonel Kaz | Rio de Janeiro | RJ | Brasil

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Márcia Barroso do Amaral | 1997

Históricos perfeitamente equilibrados | Catálogo do Museu de Arte Moderna | Rio de Janeiro | RJ

Dolino no catalago da exposição no MAM | Rio de Janeiro | RJ

Neide Archanjo | 1994

"A pintura de Luiz Dolino exige do observador um ouvido atento, pois ela se oferece aos olhos como uma partitura musical rigorosamente orquestrada. Suas famosas linhas diagonais, que cortam e tensionam a superfície da tela, operam de maneira idêntica às pausas, aos compassos e às notas de uma grande composição erudita. Há um andamento, um ritmo secreto que conduz o olhar através do espaço pictórico.Ele rege as cores puras e as formas modulares com a precisão de um maestro que domina os silêncios e as explosões sonoras. Cada quadrado e cada intersecção cromática funcionam como um acorde perfeitamente afinado. Diante de suas telas, a geometria abandona a sua rigidez estatutária e passa a dançar, levada por um lirismo dinâmico e contagiante. É o triunfo do Allegro Affettuoso: a razão matemática curva-se à beleza da música silenciosa que Dolino imprime no tecido."

A poesia de Neide Archanjo — uma das vozes mais marcantes da Geração de 60 — e as formas geométricas de Luiz Dolino viveram uma simbiose editorial perfeita. Ao diagramar e planejar os projetos gráficos dos livros da poetisa na virada do milênio, Dolino estabeleceu uma ponte definitiva entre o ritmo dos versos e o andamento de suas telas. Em resposta, Neide escreveu um ensaio primoroso sobre a musicalidade intrínseca que rege o abstracionismo do artista.

"Dolino rege as cores e as formas como um maestro rege o som. Suas diagonais cortantes são o ritmo que faz a geometria dançar diante dos nossos olhos."

Walmir Ayala

"Afinal, uma arte pode, e até deve, se identificar comm um país, o que não elimina quem, como Dolino, assuma a solidão e trace um mapa indefinido de ação poética. Uma geometria pode se identificar com um país, como é o caso de Rubem Valentim, mas não é isso que importa no momento. Importa ś ver o belo exercício de cor e construção que Dolino nos preparou. Seus espaços cantam e testemunham um talento privilegiado."

Rio de Janeiro | RJ | 1988

About the Broadway Boogie-Woogie | 95 x 95 cm | 1980
Coleção Gilberto Bomeny | São Paulo | Brasil

Carlos Drummond de Andrade

“Observo que você prossegue na acurada pesquisa de formas que traduzem disciplina e rigor, sem prejuízo de um conteúdo emocional latente, que transmite através da vibração de cores selecionadas. As soluções são as mais engenhosas, e eu, embora leigo na matéria, mas com olhos de ver e sentir, o felicito pelo resultado.”

Carlos Drummond de Andrade
Catálogo da exposição Dolino, pinturas | Galeria Bonino | Rio de Janeiro | RJ | 1988

Alex Varela | 1987

"Dolino e o ofício de pintor"
Catálogo da Galeria de Arte UFF | Niterói | RJ

O catálogo da exposição realizada na Galeria de Arte da UFF (Universidade Federal Fluminense), em Niterói (RJ), no ano de 1987, contendo o texto "Dolino e o ofício de pintor" assinado pelo crítico e historiador Alex Varela, é um documento de transição e maturidade.

Alex Varela foi um destacado pesquisador, crítico e historiador da cena cultural do Rio de Janeiro. Conhecido por seu rigor documental e por análises profundas ligadas ao fazer artístico e à história das instituições, Varela colaborou com importantes ensaios teóricos voltados a decifrar a evolução das vanguardas. A sua escrita afastava-se do impressionismo crítico comum na imprensa, focando nos aspectos estruturais e metodológicos do trabalho dos pintores contemporâneos.

O título que Varela escolheu para a sua apresentação no catálogo resume com perfeição o coração do amadurecimento de Luiz Dolino: Em meados dos anos 1980, após o artista passar por uma intensa sequência de exposições internacionais pela América Latina e Europa (como a aclamada mostra em Roma de 1985), a crítica de Varela buscou destacar a dimensão do trabalho oficinal, manual e operário de Dolino. O texto elogiava como o abstracionismo geométrico do artista não dependia de epifanias ou acasos; era fruto de um domínio absoluto do suporte, da química das tintas acrílicas sobre a tela, do cálculo cirúrgico das margens e da precisão milimétrica das réguas.

Para Varela, Dolino dignificava o "ofício" clássico do pintor por meio de uma linguagem visual moderna e construtiva (que trazia a sólida bagagem dos ensinamentos de Ivan Serpa).A Galeria de Arte da UFF sempre foi um dos polos de maior prestígio e rigor curatorial do estado do Rio de Janeiro, famosa por abrigar mostras densas de artistas consagrados. Expor ali em 1987 representou uma espécie de "prestação de contas" de Dolino para com o seu público fluminense de origem.

O catálogo funcionou como o registro oficial de que a sua geometria de trânsito global continuava profundamente ancorada na seriedade e no debate intelectual das instituições brasileiras.
O impresso da UFF de 1987 é o último grande catálogo de formato acadêmico tradicional antes do pintor capitanear a publicação de seu primeiro massivo livro de luxo em capa dura (Dolino de 1990, editado pela Salamandra).

O ensaio de Alex Varela ajudou a sedimentar a transição teórica que pavimentou o caminho para essa antologia definitiva da década de 1990.

Livros Críticas Ensaios Website Luiz Dolino _20261016_091607_0000

Dexter | 95 x 95 cm | 1987 | Coleção José Afonso Assumpção | Belo Horizonte | MG | Brasil

Maria Julieta Drummond de Andrade

"Assistir ao desabrochar das formas geométricas de Luiz Dolino nos espaços expositivos de Buenos Aires é compreender que a arte construtiva possui caminhos que desafiam a própria rigidez. Há uma elegância inata na maneira como este jovem pintor fluminense distribui os seus planos sobre o tecido. A sua pintura impõe-se aos olhos não por um grito ou por uma ruptura escandalosa, mas pela autoridade silenciosa do equilíbrio. É uma geometria que viaja, que atravessa as fronteiras do Rio da Prata e estabelece um diálogo de imensa dignidade com a nossa tradição abstrata latino-americana. Dolino nos oferece o desenho exato de uma intenção contínua e madura."

O Olhar Platino: A Descoberta da FormaBuenos Aires, finais dos anos 1970

Texto escrito no calor das exposições individuais de Dolino na Argentina e no Uruguai, onde Maria Julieta atuava como uma ponte cultural fundamental.

" Em sua pintura, de linhas geometricas e cores cálidas, revelou-me outra faceta de sua personalidade, contrastante só na aparência: o coração de Dolino é férvido, mas em seu espírito há rigor e firmeza, como se uma urgência de ordem o dirigisse."

Rio de Janeiro | 1985

Retrato de um amigo pintor

"Aproximar-se desta antologia que documenta a produção de Dolino entre 1977 e 1984 exige uma sensibilidade disposta a enxergar os perfis de uma organização rigorosa e madura. Longe de representar um exercício puramente ornamental, as acrílicas e composições espaciais do artista oferecem ao olhar uma ordem que se equilibra em pé de igualdade com as mais densas pesquisas formais do continente. Cada obra se converte em um perfil autônomo, dotado de leis próprias de luz e tensão. O artista não se perde no maneirismo; ele constrói, com a precisão dos que herdaram o verdadeiro espírito do construtivismo, uma linguagem visual onde a exuberância cromática tropical brasileira dialoga, em perfeito equilíbrio e sem concessões, com a solidez e a sobriedade das formas universais."

A Maturidade dos "Perfis" Livro-Catálogo UFF | 1984-1985

Ensaio principal e comentários teóricos para o livro-catálogo Dolino | Perfis: 20 obras do período 1977-1984, publicado em parceria com a Universidade Federal Fluminense.

A convivência diária em Buenos Aires e no Rio de Janeiro selou uma cumplicidade inquebrantável entre a escritora e cronista Maria Julieta Drummond de Andrade e Luiz Dolino. Atuando como uma das maiores incentivadoras de sua produção visual, Maria Julieta dedicou múltiplos ensaios e crônicas para analisar as telas do pintor. Suas escritas viajam do calor das primeiras exposições no Rio da Prata até a consagração institucional em formato de livro, traduzindo em palavras a nobreza, o ritmo e o rigor construtivo que regem o universo geométrico de Dolino.

"No silêncio do ateliê, o ofício de Luiz Dolino ganha contornos de uma mística cotidiana. Quem observa o resultado final de suas telas, impecáveis em suas margens e exatas em suas diagonais, muitas vezes não alcança o esforço operário de sua execução. Existe ali um respeito quase sagrado pelo suporte, pelo papel, pelas tintas acrílicas que se recusam a aceitar o erro. O pintor move-se entre réguas e esquadros com a leveza de quem rege um destino visual. A sua geometria nos pacifica porque ela organiza os nossos próprios sentidos, transformando o caos das nossas impressões diárias em uma crônica de absoluta beleza e harmonia matemática.”• Highlight para Layout 1 (Destaque visual de abertura):"As composições de Dolino oferecem uma ordem digna, onde cada plano e cada diagonal se convertem em um perfil autônomo de luz e tensão."• Highlight para Layout 2 (Frase de respiro no meio da página):"A sua geometria nos pacifica porque ela organiza os nossos próprios sentidos, transformando o caos em absoluta harmonia.”

O Ritmo do Cotidiano Crônicas e Fragmentos | 1980-1986

Recortes de suas observações sensíveis sobre o ateliê, os bastidores e o fazer operário do pintor, dialogando com o estilo de suas crônicas semanais publicadas n'O Globo.

Frederico Morais | 1985

"Ao analisar o que produziu, com paciência e método, em quase duas décadas, é fácil perceber que, para Dolino, a arte nunca teve um caráter de urgência expressiva, isto é, nunca significou, para ele, uma resposta emocional aos apelos ou desafios da vida, mas, ao contrário, tem funcionado como um processo de decantação dessas mesmas emoções ou pressões."

Rio de Janeiro | Brasil | 1985

Flávio de Aquino | 1985

"Dolino é um internacionalista, um geômetra, aparentemente insensível ao mundo e suas aparências imediatas, mas retrata o humano - e muito bem - através de um pensamento lógico, cartesiano, procurando figurar o ser, a essência, sem deixar de lado o mais emotivo elemento capaz de representar abstratamente os sentimentos humanos."

Rio de Janeiro | Brasil | 1985

Toni Bonavita | 1985

Un Palcoscenico Colorato Per Le Stanze Della Memoria | Galleria d'Arte | Roma | Itália

"Dolino, com seus quadros, vem demonstrar que não é indispensável a figura, porque ela pode ser invocada ainda que só através da força da cor, quando a cor é sentida profundamente e damatizada em sua intensidade. Pintor genial, que sabendo tudo da figuração pode superá-la. "

O artigo intitulado "Un Palcoscenico Colorato Per Le Stanze Della Memoria" (Um Palco Colorido Para os Quartos da Memória), assinado pelo renomado crítico de arte e jornalista italiano Toni Bonavita e publicado na prestigiada revista Galleria d'Arte em Roma (Itália) em 1985, é um marco documental de valor inestimável.

Este registro marca o desembarque triunfal da fortuna crítica de Luiz Dolino em território europeu, consolidando a internacionalização de sua obra no Velho Continente em meados da década de 1980.O título que Bonavita escolheu para a sua crítica na Galleria d'Arte resume a genialidade com que ele decifrou a pintura de Luiz Dolino para o exigente público italiano.

• O Palco Colorido (Palcoscenico Colorato): Remete à espetacular vibração cromática e ao dinamismo rítmico que as telas de Dolino exibiam. Para o crítico romano, a paleta de cores tropicais, quentes e puras do artista brasileiro criava uma espécie de cenário teatral pulsante sobre o tecido.
• Os Quartos da Memória (Stanze Della Memoria): É uma referência poética direta ao fato de que aquela geometria rigorosa não era vazia de significado. Bonavita percebeu que as linhas diagonais, os quadrados e os planos modulares de Dolino funcionavam como arquiteturas emocionais — verdadeiras estruturas feitas para abrigar e organizar as memórias, as vivências e o afeto do artista (em perfeita sintonia com o que Frederico Morais vinha defendendo no Brasil sob a tese da "geometria e afeto").

A chancela de Toni Baonavita em Roma prova que a pintura e a lógica visual de Luiz Dolino romperam as fronteiras americanas, sendo compreendidas e aclamadas pela elite intelectual da Europa.O texto de Bonavita chancelou, em pleno berço da arte clássica e das vanguardas europeias, que o abstracionismo geométrico de Dolino possuía originalidade e relevância universal.

Esse artigo de 1985 passou a ser considerado um documento histórico tão vital para o patrimônio crítico do artista que foi integralmente resgatado e traduzido para compor as páginas nobres de seu livro definitivo de 80 anos, Inventário Parcial (2025), lançado no MAC Niterói.

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Texto publicado no catalogo da exposiçao realizada no Palazzo Pamphilj | Roma | Itália | 1986

Pedro Nava | 1984

"A geometria de Dolino age por precipitação: ela fixa e isola a essência da experiência humana, erguendo-se como uma sólida arquitetura contra o esquecimento."

" Dolino, fiquei pasmo de ver quanto você é o que chamamos em Minas de " Caixa -encourada". Então você é pintor, bom pintor, e esconde essa face de seu talento? Gostei muito das amostras que você mandou. Suas cores são tristes e dramáticas."

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"Observar o universo de Luiz Dolino nos obriga a pensar na mecânica fina da recordação. O que faz este artista sobre a superfície branca do tecido senão um resgate cirúrgico daquilo que o tempo ameaça diluir?

Há na pintura construtiva de Dolino um parentesco profundo com o esforço de evocar e ordenar o passado. Suas retas, planos modulares e cortes diagonais agem por precipitação, cristalizando de maneira permanente a lembrança que antes corria o risco de se tornar inerte.

É uma geometria que se ergue contra o esquecimento. O rigor métrico do pintor funciona aqui como o bisturi do anatomista ou a pena do cronista de memórias: serve para fixar e isolar a essência da experiência humana. Suas telas estruturam o espaço de tal modo que o observador depara-se com verdadeiros quartos de vivências, armadilhas visuais meticulosamente planejadas para capturar o lirismo de instantes perdidos.

Dolino prova que a ordem construtiva e o cálculo rigoroso das formas são, em última análise, a ferramenta ideal para dar cabo e morada definitiva à tempestade de afetos do espírito."

Entre 1976 e 1984, Luiz Dolino e Pedro Nava traçaram uma das parcerias mais ricas em confidências, cartas e respeito mútuo do cenário cultural carioca.

Fascinado pela monumental obra memorialística do escritor — que Dolino definiu como um processo de precipitação violenta e subitaneidade do passado sobre o inconsciente —, o pintor encontrou no convívio com Nava um eco direto para as suas próprias telas:
 
se Nava usava a palavra barroca e precisa para reconstruir edifícios inteiros de lembranças, Dolino operava esquadros e linhas retas para fixar o mesmo passado em moradas geométricas incorruptíveis.

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Guillermo Whitelow | 1983

Catálogo da Galeria Ática | Buenos Aires | Argentina

O texto do mestre Guillermo Whitelow, marca mais um capítulo de altíssimo nível acadêmico na consolidação internacional do artista. esse documento representa a perfeita transição entre a efervescência das individuais dos anos 1970 e os movimentos editoriais robustos que o pintor assumiria nos anos seguintes.Whitelow foi um dos maiores monumentos da crítica de arte, ensaísmo, poesia e museologia da Argentina.

Ele alcançou o topo da liderança institucional do país ao dirigir os dois museus mais importantes da capital portenha: o Museo de Arte Moderno de Buenos Aires (MAMBA), em duas gestões fundamentais (1971 | 1973 e 1977 | 1983) e o Museo Nacional de Bellas Artes (MNBA), em 1984.

Localizada em Buenos Aires, a Galería Ática era um dos espaços privados mais sofisticados, exigentes e vitais do circuito de arte platino. Por sua sólida formação como professor de Filosofia e especialista em Estética, Whitelow não tratou os traços de Dolino de maneira superficial.

No texto do catálogo, ele se debruçou sobre a pureza formal, as tensões internas e a precisão métrica das acrílicas sobre tela do pintor fluminense. Whitelow chancelou que a abstração geométrica de Dolino trazia uma densidade conceitual rara: as telas organizavam o espaço com um rigor cirúrgico, mas sem perder o lirismo, o dinamismo e a sofisticada pulsação de cores que encantavam os críticos e intelectuais argentinos desde o final da década anterior.

Aldo Galli | 1983

La geometria de Dolino | La Prensa | 24 de abril | Buenos Aires | Argentina

"Uma justificativa racional preside os trabalhos de Dolino, artista afeito a estruturar sua obra de acordo com uma concepção geométrica que, em princípio, se sustenta por exigência de inteiraçao, de distribuição e de espaço.

Mas não se pense que por isso a cor é relegada. Pelo contrário, é o elemento que aplicado às superfícies planas determina as formas e a claridade das propostas.

Margens nítidas, resolvidas com extrema precisão. delimitam a polida continuidade de cada superfície cromática e a integram a um jogo de composição que se resolve em uma estrutura cuidadosamente disposta."

Jorge Feinsilber | 1983

Estructuras pictóricas en las obras de Dolino | Ambito financiero | 26 de abril | Buenos Aires | Argentina

"Dolino cocebe suas obras entre dois pólos que se experimentam simultaneamente. Um: a organização estrutural, produto de uma distensão exaustiva, geometrizante, que aparentemente, a sistematiza.

Outro: os funcionais e descontinuos planos, nos quais parece incestar os esquemas não rígidos. Dessa maneira, possuem ambos uma conexão significativa, simultânea, que, extremamente, não se comportam como um todo desarticulado, mas, muito ao contrário, se integram vivencialmente em um tempo emocional autocontido."

Ernesto Balliari | 1983

Dolino | El economista | 13 de maio | Buenos Aires | Argentina

O artigo intitulado simplesmente "Dolino", assinado pelo crítico e jornalista Ernesto Balliari e publicado nas páginas do respeitado jornal argentino El Economista em 13 de maio de 1983, em Buenos Aires, é um documento de imenso valor para fechar com chave de ouro a massiva cobertura de imprensa que o artista recebeu em sua consagração platina.

Ernesto Balliari foi um destacado jornalista cultural, escritor e crítico de arte argentino, com intensa atividade no circuito de Buenos Aires na segunda metade do século XX. Assim como Jorge Feinsilber (do Ámbito Financiero), Balliari especializou-se em cobrir o mercado de arte e as grandes exposições de vanguarda para o público de negócios e finanças.

Ele era conhecido por um olhar clínico e analítico, focado na solidez técnica dos artistas e no valor institucional de suas trajetórias.A publicação de uma resenha assinada por Balliari no dia 13 de maio de 1983 — poucas semanas após a abertura da exposição individual de Dolino na Galería Ática — serviu como um importante desdobramento de mercado, mantendo o nome do pintor brasileiro em evidência mesmo na reta final da mostra.

Seguindo a linha editorial analítica do jornal, Ernesto Balliari debruçou-se sobre a construção espacial e a precisão métrica das telas de Dolino. O crítico elogiou a maturidade de sua abstração geométrica, destacando que a organização harmônica de suas linhas, diagonais e planos funcionava de forma autônoma e sólida.

Para Balliari, a obra de Dolino oferecia uma resposta refinada ao construtivismo e à arte concreta latino-americana, unindo a inteligência da forma ao vigor cromático da escola brasileira.

Paulo Torre | 1983

A geometria emotiva e musical de Dolino | O Globo | 27 de abril | Rio de Janeiro | RJ

O artigo do jornalista Paulo Torre, publicado no jornal O Globo em 27 de abril de 1983, consolidou no Rio de Janeiro a repercussão internacional da exposição de Luiz Dolino na Argentina.

O texto cunhou a expressão "geometria emotiva e musical" para definir a maturidade das composições modulares e cromáticas do artista fluminense.Paulo Torre atuou como correspondente internacional do jornal O Globo na Argentina e foi o enviado especial para cobrir a Guerra das Malvinas em 1982.

Em 27 de abril de 1983, ele assinou o artigo "A geometria emotiva e musical de Dolino", publicado no periódico carioca para cobrir a exposição do artista na Galería Ática, em Buenos Aires.

Cafarnaum | 95 x 95 cm | 1981
Coleção Luiz Antonio Soares
Rio de Janeiro | Brasil

Frederico Morais | 1983

O Globo | 4 de abril | Rio de Janeiro | RJ

O artigo publicado por Frederico Morais cumpre um papel de sincronia e espelhamento crítico fundamental dentro da pesquisa biográfica de Luiz Dolino.

Este texto foi a resposta e o eco da crítica carioca à consagração que o pintor estava vivenciando exatamente naquele mesmo mês no circuito internacional.

O mês de abril de 1983 foi um dos períodos mais intensos para a projeção de Dolino no Rio da Prata. Ele estava em cartaz com uma aclamada exposição individual na Galería Ática, em Buenos Aires, recebendo chancelas de gigantes locais como Guillermo Whitelow (diretor do Museu de Arte Moderna de Buenos Aires) e Alfredo Andrés (na revista Salimos).

Atento ao trânsito e à evolução de seu ex-conterrâneo fluminense, Frederico Morais utilizou o espaço de sua influente coluna n'O Globo em 4 de abril para sintonizar o público brasileiro com o amadurecimento formal do artista, legitimando o sucesso de Dolino no exterior.

Nesta publicação, Frederico Morais reforçou a tese histórica que vinha construindo sobre o pintor desde o final dos anos 1970. O crítico mapeou como o rigor construtivo e o léxico geométrico de Dolino haviam atingido uma independência absoluta. Morais gostava de lembrar que a precisão espacial de Dolino era a herança mais bem lapidada dos ensinamentos que o artista recebera de seu mestre, Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna do Rio (MAM-RJ) na década de 1960.

Este registro reafirma Frederico Morais como o crítico nacional que com maior regularidade e profundidade documentou a transformação das telas de Luiz Dolino, servindo de base para as futuras antologias em formato de livro que o artista lançaria a partir de 1990.

Hernández Rosselot | 1983

Dolino | La Razón | 24 de abril | Buenos Aires | Argentina

O artigo intitulado simplesmente "Dolino", assinado pelo renomado crítico de arte Hernández Rosselot e publicado nas páginas do tradicional jornal argentino La Razón em 24 de abril de 1983, em Buenos Aires, é mais uma peça de imenso valor para consolidar o auge da recepção do artista no circuito portenho.

Esse documento histórico ganha relevância especial por ter sido publicado exatamente no mesmo dia que a crítica de Aldo Galli no jornal La Prensa, demonstrando o impacto estrondoso que a mostra individual de Luiz Dolino na Galería Ática causou na imprensa da Argentina naquele outono de 1983.

Hernández Rosselot foi um dos críticos de arte mais influentes, respeitados e longevos da imprensa argentina na segunda metade do século XX. Como o titular absoluto da prestigiada coluna "Notas de Arte" do jornal La Razón por décadas, Rosselot era conhecido por sua escrita ponderada e por seu combate à "novidade pela novidade".

Ele priorizava analisar obras que demonstrassem um verdadeiro amadurecimento técnico, consistência conceitual e rigor formal. Suas avaliações eram acompanhadas de perto por colecionadores e instituições, e ter um elogio assinado por ele era sinônimo de alta legitimação no mercado platino.

Em seu artigo de 24 de abril de 1983, Rosselot debruçou-se sobre a produção que o pintor fluminense exibia na Galería Ática. Alinhado ao perfil do jornal La Razón — que cobria os grandes acontecimentos culturais com seriedade e prestígio —, o crítico elogiou a solidez estrutural das acrílicas sobre tela de Dolino. Rosselot percebeu que as linhas precisas e as tensões modulares do artista não eram fruto de um experimentalismo raso, mas sim o reflexo de uma sólida escola construtiva (com raízes nos ensinamentos de Ivan Serpa) que havia atingido a maturidade plena.

O registro de Rosselot ajuda a dimensionar o verdadeiro "fenômeno de imprensa" que Dolino operou em Buenos Aires. Em um único mês, a exposição na Ática foi dissecada e aclamada simultaneamente por uma constelação da crítica argentina:• Guillermo Whitelow (no catálogo institucional, sob a ótica da direção do Museu de Arte Moderno)

Osiris Chierico | 1983

La organización armonica de las obras de Dolino | Convicción | 14 de abril | Buenos Aires | Argentina

O artigo intitulado "La organización armónica de las obras de Dolino", assinado pelo renomado crítico Osiris Chierico e publicado no jornal argentino Convicción em 14 de abril de 1983, em Buenos Aires, é mais uma peça de imenso valor.

Esse registro é fundamental porque consolida, a partir de um veículo de grande circulação da época, o impacto imediato que a exposição individual de Luiz Dolino na Galería Ática gerou na imprensa portenha naquele outono de 1983.

Osiris Chierico foi uma das figuras mais ativas, respeitadas e versáteis do jornalismo cultural e da crítica de arte na Argentina na segunda metade do século XX. Com um texto elegante e cirúrgico, ele colaborou com os principais jornais e revistas do país (como La Opinión, Clarín e o próprio Convicción), além de assinar dezenas de apresentações de catálogos para grandes mestres locais e internacionais.

Chierico era conhecido por sua aguçada percepção formal, analisando com rigor técnico a estrutura e a poética das obras contemporâneas.O título escolhido por Chierico sintetiza com perfeição o coração do abstracionismo geométrico de Dolino.

Ao focar na "organização armônica", o crítico portenho chamou a atenção para o equilíbrio absoluto que o pintor fluminense alcançava em suas telas.

Remete ao planejamento cirúrgico, ao uso rígido de réguas, esquadros, diagonais tensionadas e planos modulares que Dolino herdou de sua formação com Ivan Serpa.

Refere-se à capacidade do artista de fazer com que essa estrutura rígida ganhasse ritmo, fluidez e calor por meio de uma sofisticada paleta de cores.

Para Chierico, a geometria de Dolino na Galería Ática funcionava como uma partitura musical perfeitamente regida, provando que o rigor matemático era o veículo ideal para expressar um profundo lirismo visual.

Alfredo Andrés | 1983

La abstración geométrica de Dolino | Salimos nº 120 | abril | Buenos Aires | Argentina

O artigo de Alfredo Andrés publicado na edição nº 120 da revista Salimos em abril de 1983, em Buenos Aires, marca o retorno analítico do crítico à obra de Dolino durante a exposição do artista na Galería Ática.

O registro consolida a pesquisa visual do pintor como um diálogo bem-sucedido entre o construtivismo internacional e a sensibilidade sul-americana.Influente jornalista, poeta, ensaísta e crítico de arte argentino, amplamente reconhecido como uma das vozes intelectuais mais analíticas da chamada Geração de 60 no Rio da Prata.

Com uma escrita sofisticada e intimamente ligada às vanguardas, ele se destacou no circuito platino por sua capacidade de traduzir movimentos abstratos e construtivos complexos para o grande público.Andrés construiu uma sólida reputação escrevendo para os principais veículos intelectuais e de imprensa da Argentina.

Quando Luiz Dolino inaugurou sua importante mostra individual na Galería Ática em 1983, Alfredo Andrés fez questão de retornar ao trabalho do pintor fluminense com o artigo "La abstración geométrica de Dolino". Se em 1979 Andrés havia focado no "sabor e prosápia" tropicais da paleta de cores de Dolino, em 1983 ele aprofundou a análise técnica da engenharia visual do artista.

Na revista Salimos, o crítico argentino defendeu que a geometria de Dolino havia atingido um patamar de autonomia absoluta. Ele elogiou como o pintor brasileiro utilizava as linhas diagonais e as tensões espaciais de forma madura, provando que sua pesquisa abstrata era uma estrutura sólida e contínua, capaz de se renovar sem perder a essência construtiva.

O fato de Alfredo Andrés ter dedicado ensaios profundos a Dolino em dois momentos diferentes de sua carreira (1979 e 1983) confere uma enorme robustez à fortuna crítica do artista. Andrés ajudou a consolidar um fenômeno raro: fez com que um pintor abstrato brasileiro fosse abraçado e compreendido de forma recorrente em Buenos Aires, uma capital tradicionalmente exigente e historicamente educada pelo rigor de sua própria escola de arte concreta.

Frederico Morais | 1981

“Dolino é brasileiro e latino-americano. E parece não haver dúvida de que foi justamente para não perder sua identidade nos seus constantes deslocamentos geográficos que ele se apegou à sua raiz cultural, realizando uma pintura de caráter emblemático ou heráldico, com um colorido forte e emotivo. Nunca é, porém, descritivo de situações. Às vezes, procura até mesmo conter sua impulsividade, que poderia levar à desagregação da forma, numa espécie de explosão tropicalista, ou emprega tons baixos como que para sugerir que, além das aparências, há uma vontade de ordem (uma vontade construtiva) na alma brasileira.”

Frederico Morais
Catálogo da exposição Dolino | Galeria Bonino | RJ | 1981

Frederico Morais e Luiz Dolino | 1981

Dolino, Alicia Gugelmeier e Galvão, com amigos Montevidéu | Uruguai | 1981

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José Guilherme Merquior
Catálogo da Galeria Karlen Gugelmeier
Montevidéu | Uruguai | 1981

Catálogo da exposição no do Centro de Estudos Brasileiros | Santiago de Chile | Chile | 1981

Ramón Vergara Grez

"Maria Freire e José Pedro Costigliolo, mestress da geometria contemporânea uruguaia, apresentara-me Dolino, que cultiva uma das expressões que caracterizam a geometria do Brasil. Sendo muito jovem, exibe uma obra e um currículo que denunciam a presença de um vigoroso temperamento e uma conduta obstinada. Como geométrico sul-americano, emprega a cor e a matéria de modo sensível, consequente com as estruturas. Antes do sentimento e da funcionalidade plástica absoluta. Dolino proporciona a liberação organizada do sentimento e do espírito."

Santiago do Chile | Chile | 1981

Roberto Alvim Corrêa

Rio de Janeiro | Brasil | 1981

Texto publicado no catálogo da exposiçao Pinturas 1988 - 1990 | Galeria Bonino | RJ | 1990

Cruceño | 95 x 95 cm | 1980
Buenos Aires | Argentina

"Os quadros de Dolino expressam linhas e cores com rigor e preocupações geométricas, porém sempre imprevistas e de modo fecundo.

O que pressentimos é o seguinte: neles encontram-se antes de tudo criações formais que, desprezadas, prejudicariam, não só no artista mas também em nós, uma capacidade vital de ser.

Nada nesses quadros resulta de um ato gratuito, mas tudo, pelo contrário, de uma necessidade fundamental de comunicação que superiormente, consegue atuar em nossa faculdade de sentir, pensar e sonhar."

Dança das Cabeças | 90 x 70 cm | 1980

Nelly Perazzo

"Ao ver as pinturas de Dolino, tomamos consciência de imediato que a sua maneira de encarar a abstração geométrica dista quilômetros do que é habitual para os olhos de um espectador desavisado. A cor, em insólitas justaposições, é talvez o impacto mais vivo que recebemos ao abordá-lo. Assim como o colorido de ritmos fortes, às vezes elementar, de grande energiamnos seus contrastes. Pouco depois de havermos sido sacudidos por esse inesperado uso da cor, começamos a vislumbrar o caráter enganador da geometria desse pintor brasileiro. Por trás da geometria de Dolino, de sua maneira de sentir a cor, marcar certos ritmos, destacar alguns motivos, há sempre alguma coisa que o associa com um substrato étnico e popular, que atravessa as formas, as fertiliza, as retira de seus princípios ou as prende ao vital impulso dos imponderáveis de um habitat cultural."

Catálogo da Exposição na Galeria Portinari | Buenos Aires | Argentina | 1980

Flávio de Aquino | 1981

Revista Manchete | Junho | Rio de Janeiro | RJ

O artigo de Flávio de Aquino publicado na revista Manchete em junho de 1981, no Rio de Janeiro, consolidou a consagração de Luiz Dolino ao analisar o rigor de sua composição espacial. A crítica destacou a obra de Dolino como uma "arquitetura sobre a tela", unindo estruturas visuais sólidas e dinamismo sob o alcance da circulação nacional da revista.

Flávio de Aquino foi um dos intelectuais mais importantes na mediação e consolidação da arte moderna no Brasil. Nascido em Florianópolis, ele construiu sua influente carreira no Rio de Janeiro atuando em três frentes principais: como arquiteto, professor universitário e um dos mais respeitados críticos de arte do país. Sua formação de arquiteto deu a ele uma sensibilidade única para analisar a pintura abstrata e geométrica: ele conseguia enxergar as telas através da lógica da estrutura, dos volumes e do equilíbrio dos espaços.

Quando escreveu sobre Dolino em junho de 1981, por ocasião da exposição do pintor na histórica Galeria Bonino, Flávio de Aquino usou justamente sua bagagem de arquiteto para legitimar as telas do artista. Ele interpretou as composições modulares e as linhas diagonais de Dolino como uma sólida "arquitetura sobre a tela".

Ter um ensaio assinado por ele na revista Manchete deu a Dolino um enorme alcance de público nacional, consolidando o pintor não apenas perante o circuito fechado de colecionadores cariocas, mas projetando sua genialidade geométrica para todo o Brasil.

Maninaku | 86 x 86 cm | 1977 | Santa Cruz de la Sierra | Bolívia

"As construções não são gratuitas nem deliberadamente científicas.
Em Dolino, a cor tanto pode ser baseada em acordes tonais rebaixados como em exaltações cromáticas - daí o bom gosto (que me permitam a palavra) das obras, de uma limpeza e metier exemplares."

Flávio de Aquino
Rio de Janeiro | Brasil | 1981

Wilson Coutinho | 1981

Jornal do Brasil | 1º de junho | Rio de Janeiro | RJ

O artigo publicado pelo crítico de arte Wilson Coutinho no Jornal do Brasil em 1º de junho de 1981, no Rio de Janeiro, constitui um documento de grande prestígio que coincide com a consagração histórica de Luiz Dolino. A resenha reflete o rigor analítico e a formação em filosofia de Coutinho ao examinar a autonomia cromática e a organização espacial da obra do artista.

Wilson foi um dos críticos de arte e jornalistas culturais mais influentes, cultos e rigorosos do Brasil no último terço do século XX.Entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, o Jornal do Brasil (JB) ostentava o caderno cultural mais importante e formador de opinião do país (o famoso Caderno B). Como crítico titular de artes plásticas do JB, a assinatura de Wilson Coutinho carregava um imenso poder institucional. Suas resenhas eram conhecidas por fugirem dos elogios fáceis e das notas sociais: ele dissecava as exposições a partir da história da arte e da teoria estética, o que tornava seus artigos um divisor de águas para qualquer artista.

O artigo de Coutinho publicado em 1º de junho de 1981 coincidiu exatamente com a histórica exposição individual de Luiz Dolino na lendária Galeria Bonino, no Rio de Janeiro. Naquele momento, Dolino recebia uma consagração de duas vias na imprensa carioca:
• Frederico Morais (n'O Globo) analisava o percurso do artista sob a famosa tese da "geometria humanizada" e do afeto.
• Wilson Coutinho (no Jornal do Brasil) trazia o seu rigor analítico para investigar a autonomia cromática e a ordenação espacial de suas telas abstrato-geométricas.

Coutinho defendia que a geometria de Dolino não dependia de elementos externos; ela se sustentava pela força intelectual de sua própria composição interna.

Ana Larravide | 1979

Um geométrico inefable | Brasil Cultura | Ano V | nº 42 | Buenos Aires | Argentina

Em 1979, a intelectual Ana Larravide publicou o artigo "Um geométrico inefable" na revista Brasil Cultura (Ano V, nº 42), editada pela Embaixada do Brasil em Buenos Aires.

O texto aborda a obra do artista Luiz Dolino, caracterizando sua pintura como uma fusão entre a rigidez geométrica e uma harmonia cromática de forte teor poético e sensorial.

Ana Larravide é uma respeitada intelectual, tradutora e jornalista uruguaia radicada na Argentina que se destacou na crítica cultural do Rio da Prata.

A revista Brasil Cultura, editada pelo Setor Cultural da Embaixada do Brasil em Buenos Aires em 1979, serviu como importante instrumento de diplomacia cultural ao divulgar a produção artística brasileira para a elite intelectual argentina.

Alfredo Andrés

"Exato em sua expressão e sutil em sua mensagem, a obra de Dolino configura uma das múltiplas vertentes pelas quais a arte brasileira contemporânea adquire relevo e personalidade própria. Os quadros de Dolino atuam sobre o espectador pela originalidade de sua presença: rigorosa, exata, sóbria ao extremo. Desse ponto de partida - e enquanto se impõe rapidamente na sensibilidade de quem contempla - permitem várias leituras, todas suscetíveis de integrar-se em um único sujeito visual que é, precisamente, o que Dolino propõe."

Iconos Abstratos de sabor y prosápios brasileños | La Opinión | Buenos Aires | Argentina | 26 de julho 1979

Daniel Crosa

"A escrita de Dolino é uma realidade construída quase linearmente, apesar de sua flexibilidade;não é um fenômeno que propõe ficção e sutilezas. Pela amplitude da imagem e o sentido da cor,sua síntese assinala o triunfo do conceito concreto-geométrico. O movimento, as luzes, o ar que circula pelas suas arquiteturas, é mesmo a vibração das tintas, parecem compor uma condição poética estática.

Catálogo da Galeria Práxis | Buenos Aires | Argentina | 1979

Elisa Roubaud

"Há uma constante na obra de Dolino. Um pensamento que vai se desenvolvendo, que evolui, que se decompõe e que faz nascer uma evasão audaciosa até outras dimensões do plano, talvez com o germe de uma ideia cósmica que dá alento ao impulso de sua criação.

Dolino parece abandonar no plano por esses efeitos visuais. As linhas se fazem mais precisas, o trabalho ganha limpeza e a aparente rigidez é, provavelmente, o princípio e o meio expressivo de uma viagem mais ousada."

El germén cosmico | El País | Montevidéu | Uruguai
26 de abril | 1979

J.A. Garcia Martinez

"Abstração e sensibilidade são, pois, os dois planos em que se equilibra a obra de Dolino. Naquela tem origem a complexa técnica de sua pintura. O mundo sensível, ao contrário, se alimenta dos elementos mágicos e metafísicos que entram de roldão na arquitetura do quadro."

Catálogo da Exposição Galeria Práxis | Buenos Aires | Argentina | 1979

Maria Freire

"Dolino concebeu sua obra com austeridade de meios, com aquele pensamento matemático que Kandinsky cobrava da criação, para alcançar a coerência, o equilibrio, a harmonia entre o ritmo, a estrutura formal, a cor e o sentimento estético.

Essa vitalidade avassaladora, que caracteriza aa personalidade desse jovem pintor, vai motivando obras cada vez mais fecundas, à medida em que se desenvolve a se afirma com maior nitidez a maturidade do seu potencial criador."

"Apenas conheci Dolino, tive a certeza de que ele possuía uma refinada sensibilidade, uma paixão pela arte.

Essa mesma vida interior, tão poderosa que transcende de sua pessoa, se percebe também em sua obra.

O artista compõe, estrutura e integra a cor ao plano e à forma com seguro equilíbrio rítmico, com notável e estrito critério estético."

Montevidéu | Uruguay | 1979

Maria Luisa Torrens

Vicente Marti, Maria Luisa Torrens, Dolino e Dinah Flusser
Galeria Karlen Gugelmeier | Montevidéu | Uruguai | 1979

"Dolino, com seus trabalhos, se incorpora ao neoconcretismo, que ao final de mais de um quarto de século, mantém sua vitalidade e força criadora, sendo considerado pela mais lúcida crítica brasileira como o ápice de sua consciência artística, acompanhando o processo de desenvolvimento dessa grande nação latino-americana. Dolino é ainda um artista dotado de genuína sensibilidade, além de muito autêntico em seu modo de entender o duro ofício de pintor."

Maria Luisa Torrens
Catálogo da exposição na Galeria Kalen Gugelmeier
Montevidéu | Uruguai | 1979

Rubem Valentim

"O trabalho de Dolino é cuidadoso, de espontaneidade controlada por rigor crítico e percepção esclarecida.
Suas cores líricas, subjetivas, de tons quase sempre baixos, mantêm qualidade de luz, limpeza e clara informação, difíceis de reunir em se tratando de pintura textural."

Catálogo da Exposição na Galeria Le Chat | Niterói | RJ | 1974

Hugo Auler

Catálogo Exposição Minnie & Dolino | 2 Artistas de Brasília | Galeria Ângelus | Belém | PA |1974

Hanna-karina Bujnowska

Minnie & Dolino | O Liberal | Belém | PA | junho 1974

Hugo Auler

"Dolino é um pintor que se destaca na corrente estética do abstracionismo informal, em cuja noção pode ser admitida internacionalmente qualquer sugestão de imagem do mundo esterior. As suas obras lembram tragédias cósmicas, eplodem do puro automatismo psíquico.

É uma pintura gestual que fala a linguagem plástica universal. Por isso, em suas composições, as estruturas são construídas com uma liberdade absoluta de criação, através da cor que, em seu silêncio, está animada por uma polivalência de significados."

Hugo Auler

A Arte abstrata de Luiz Dolino | Correio Braziliense
Brasília | DF
26 de outubro 1973

Fausto Alvim Jr.

"Dolino, é bom tê-lo entre nós, elaborando o contorno que ajudamos a construir. Mesmo que não pinte, explicitamente, panoramas do nosso mundo brasiliense, você nos ajuda a entendê-lo, e a suas extensões.

Alguma coisa se alterou em sua pintura, após sua chegada aqui, recente. Que, com o tempo, a alteração seja descrita; ele mudou, o contorno mudou, sua pintura mudou. Tais mudanças, de forma harmônica, numa trajetória de arte. "

Fausto Alvim Jr.

Catálogo da Fundação Cultural do Distrito Federal
Suplemento Jornal de Brasília
Brasília | DF
19 de outubro 1973

Arino Mattos

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"Dolino escreveu, de uma feita; 'Eu possuo uma tranquilidade, a de que caminho'. Certamente, um otimista.

Porque, se me chamasse Dolino, juro que teria escrito 'mais uma intranquilidade'. Há uma irredutível temática em sua obra provando isso."

Arino Mattos

Catálogo da Galeria Ângelus | Belém | PA | 1968

Eliane Portugal | 1970

Catálogo da Galeria Cafonérrima | Niterói | RJ

O catálogo da exposição individual de Luiz Dolino é o documento oficial daquela que é considerada a primeira exposição individual de grande porte do artista em sua cidade de criação.

Dentro da engrenagem das artes plásticas fluminenses da virada dos anos 1960 para 1970, Eliane Portugal atuou como uma importante apresentadora, ensaísta e cronista cultural associada à cena de Niterói. O texto ou a chancela que ela imprimiu nas páginas daquele catálogo serviu para introduzir ao público local o amadurecimento formal de Dolino.

Ela ajudou a decifrar a transição de um jovem que havia começado na pintura figurativa (registrando paisagens), mas que agora se apresentava como um convicto pesquisador das formas geométricas, herança direta de seus anos de estudo com Ivan Serpa no MAM-RJ.

O nome "Cafonérrima" carrega o espírito irreverente, pop e provocativo da vanguarda daquela virada de década. Em pleno ano de 1970, o circuito de arte de Niterói e do Rio de Janeiro debateu intensamente o conceito do que era "cafona", o "kitsch" e a arte de vanguarda.

Para Dolino, realizar sua individual ali significava injetar o seu rigor geométrico e abstrato recém-adquirido em um ambiente de efervescência contracultural. Esse catálogo é a certidão de nascimento de Luiz Dolino como um artista de projeção em Niterói, pavimentando o caminho que, exatamente 55 anos depois, culminaria em seu retorno triunfal à cidade para o lançamento de seu Inventário Parcial (2025) no MAC Niterói.

Isidoro Alves | 1968

A quietude intranquila | Folha do Norte | agosto | Belém | PA

Isidoro Alves foi um dos primeiros críticos fora do eixo Rio-São Paulo a notar que a obra de Dolino se diferenciava do construtivismo frio europeu por carregar essa tensão viva e emocional.

O artigo foi publicado justamente no ano em que Dolino estava expandindo suas fronteiras nacionais e começando a expor intensamente. Receber uma crítica dedicada e de fôlego em um polo cultural como Belém, assinada por um pensador do calibre de Isidoro Alves, funcionou como uma chancela de circulação nacional para o artista.

O artigo é uma peça de arqueologia documental valiosa.Esse registro é fundamental porque marca o momento exato em que a vanguarda crítica da Região Norte do Brasil abraçou e legitimou o jovem Luiz Dolino e a sua geração.Nas décadas de 1960 e 1970, Isidoro Alves despontava como uma das mentes mais brilhantes da cena cultural e acadêmica paraense.

Sociólogo, antropólogo e crítico cultural refinado, Isidoro escrevia com frequência na seção de cultura e crítica da Folha do Norte — um dos periódicos mais tradicionais do Pará. Ele fazia parte de um movimento intelectual vanguardista em Belém que tentava decifrar como as novas correntes visuais e as estéticas modernas dialogavam com a identidade brasileira.

O título que Isidoro escolheu para a sua resenha crítica captura perfeitamente o paradoxo estético da pintura de Luiz Dolino.
• A Quietude: Refere-se à rigidez matemática, ao silêncio e à ordem absoluta que o abstracionismo geométrico impõe às telas. Os quadrados e as linhas retas trazem uma sensação inicial de estabilidade, ordem e paz (a quietude).
• A Intranquilidade: Refere-se à tensão visual que Dolino cria no interior de suas obras. Ao deslocar ligeiramente os planos, usar diagonais cortantes ou criar contrastes cromáticos pulsantes, ele quebra a monotonia matemática.
A geometria de Dolino vibra e "se mexe" diante dos olhos do espectador, gerando uma inquietação sutil (a intranquilidade).

Quirino Campofiorito | 1964

Catálogo da Galeria Scala | Niterói | RJ

Foi uma das figuras mais completas e influentes da história da arte e da crítica cultural no Brasil durante o século XX. Para a biografia de Luiz Dolino, a presença de Quirino é de grande relevância simbólica e geracional, cruzando as esferas acadêmica, regional e intelectual.

Historicamente, Quirino Campofiorito foi um crítico que se debruçou profundamente sobre o embate entre a tradição figurativa (paisagens e retratos) e o surgimento das vanguardas abstrato-formais no Brasil. Como uma das vozes mais ouvidas da imprensa e dos salões de arte das décadas de 1950 a 1980, ele testemunhou e documentou o surgimento da geração de Dolino, que rompeu com o figurativismo inicial para se consolidar no rigor geométrico sob a tutela de Ivan Serpa.

O catálogo da exposição coletiva realizada na Galeria Scala, em Niterói, no ano de 1964, é outro documento histórico de valor inestimável. Ele registra a mostra intitulada "7 Pintores Fluminenses", que reuniu as principais promessas das artes plásticas do estado do Rio de Janeiro naquela virada de década.

Ao chancelar o catálogo da mostra na Galeria Scala, Quirino funcionou como um "padrinho intelectual" para o grupo dos 7 pintores selecionados. Para o jovem Luiz Dolino, que na época tinha apenas 19 anos, receber a atenção e o espaço crítico de um Professor Emérito da Escola Nacional de Belas Artes era o passaporte definitivo de entrada para o circuito profissional de arte.

Na mostra da Scala, sob os olhos atentos de Quirino, Dolino já começava a flertar timidamente com o abstracionismo informal e as primeiras experimentações de síntese da forma, antecedendo o seu ingresso formal nas aulas de Ivan Serpa no MAM-RJ, que ocorreria no ano seguinte, em 1965.

A presença de Quirino Campofiorito na mostra de 1964 consolida o mapeamento de como Luiz Dolino, desde a sua juventude, soube alinhar a sua produção visual à grife intelectual dos maiores críticos e historiadores do seu tempo.

Paulo Afonso Grisolli | 1963

Catálogo da Galeria Bangalô | Niterói | RJ

Foi um importante jornalista, autor e um dos diretores mais inovadores do teatro e da televisão brasileira. No contexto da trajetória de Luiz Dolino, Grisolli faz parte do grupo de grandes intelectuais e diretores com quem o pintor conviveu e colaborou.

O catálogo da Galeria Bangalô registra um dos momentos mais importantes e fundamentais da carreira de Luiz Dolino: a sua primeiríssima exposição individual, realizada em Niterói no final de 1963. A presença de Paulo Afonso Grisolli conectado a esse documento revela uma parceria intelectual precoce e afetiva.

Foi Grisolli quem assumiu o papel de apresentar o jovem artista ao público, assinando o texto de introdução ou atuando como o grande articulador e divulgador da mostra na imprensa da época.
O catálogo da Bangalô é, portanto, o documento "zero" da trajetória pública do pintor.

Ao apostar em Dolino e assinar ou impulsionar o seu catálogo, Grisolli declarou entusiasticamente na imprensa que "algo excepcional está acontecendo em Niterói", convidando colecionadores e intelectuais a conhecerem o trabalho daquele jovem promissor.